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Converted by Falcon Hive

Diário de Katarina

02:35 ,

O diário de uma jovem russa que envolveu-se em diversas tramas.

…gostaria de ter começado a escrever este diário há mais tempo, mas me faltava coragem, queria esquecer o passado, porém vejo que é impossível. Ele sempre está por perto, nunca me deixa. Pesadelos? Quase todas as noites. Medo? Muito. Esperança? Talvez a minha vida possa ter começado a mudar. Dúvidas? Muitas, muitas perguntas sem respostas. Começo a contar aqui um pouco do que foi a minha vida e como ela está agora, após algumas descobertas …

... 12 de junho de 2000

Nasci em Petrogrado no ano de 1986, filha de Nicolai Poliakovsky e Irina Tcherbatsky. Já faz muito tempo que venho me sentindo estranha, diferente das outras pessoas mesmo antes de encontrar aqueles dois malucos, o Nicolas e a Tatiana, além é claro, daquele pai dela, o desgraçado do Mikhail Davidovich, que é um ser que odeio profundamente, porque ele matou meu amado Trotsky e quase me deixou aleijada com aquele poder demoníaco.

Acho que tudo começou quando eu tinha uns 6 ou 7 anos. As visões foram aparecendo lentamente, mas com o tempo, tornaram-se mais frequentes, era normal ver vultos. Eu tentei falar com os meus pais, porém não me davam a mínima atenção, deviam achar que era coisa de criança, no entanto, sabia que não era maluquice minha, era real, apesar de não conseguir tocá-los.

Arrumei muitos problemas no colégio por causa desses vultos, pois sempre tinha um engraçadinho gozando de mim. Eu detestava aquelas brincadeiras, ficava morrendo de raiva, então acabava arrumando briga. Fui suspensa por várias vezes e cheguei a ser expulsa de uns três colégios.
…15 de julho de 2000

Meus pais, como já disse, pouco ligavam com o que acontecia comigo, em geral saiam bem cedo e só voltavam tarde da noite. De certa forma, isso era muito bom, porque os dois viviam brigando, eram discussões e mais discussões, que às vezes se arrastavam noite adentro. Minha mãe, apesar de tudo, era uma mulher maravilhosa e muito amável, ao seu jeito, comigo. No entanto, tinha um gênio forte, não aceitando ordens nem do meu pai e nem de ninguém. Pelo que me lembro dela, creio que estou ficando muito parecida, não só na aparência, mas também no comportamento explosivo. Já o meu pai, era um homem detestável, sem escrúpulos e extremamente perverso, porém só tomei conhecimento de sua perversidade, depois que minha mãe desapareceu; na verdade, gostaria muito que ela ainda estivesse viva, mas acho que ele realmente a matou.

Por várias vezes, tive o desprazer de presenciar tais brigas ou pelo menos ouvi-las. Era uma gritaria infernal e seria impossível que ninguém na casa não escutasse. Acordava no meio da noite ao som de gritos e coisas se quebrando, de vez em quando, ia tentar escutar atrás da porta do escritório, embora fosse difícil entender, parecia que estavam falando em outra língua.

…05 de agosto de 2000

Hoje me lembrei de uma dessas discussões que tiveram e sobre algo que consegui entender em meio aquela confusão de palavras, mas que na época não dei a menor importância. Minha mãe disse que estavam em sociedades de princípios completamente opostos e que ele não perderia por esperar.

Bom, pelo que fiquei sabendo a pouco, meu pai realmente pertencia a uma sociedade, a do Mikhail, o engraçado é que nunca havia notado nada de “diferente” em nenhum dos dois. Mas agora não adianta ficar questionando nada sobre eles, pois nenhum deles está aqui para me esclarecer nada, gostaria muito que ela pudesse me explicar.

Essa tal discussão ocorreu, se não me engano, uns dois dias antes do seu sumiço. Ela desapareceu em 1996, quando eu tinha 10 anos. Me lembro muito bem daquela maldita noite!

Eu acordei com o som de uma grande discussão, que estava vindo do andar térreo da casa. Então saí do meu quarto e fui descendo lentamente a escada que dava para a sala de jantar. Os sons ficaram bem mais claros, estavam provavelmente na sala principal. Dali fui direto para uma pequena sala, que era uma das formas de acesso ao local. Fiquei escondida atrás da porta por um bom tempo. Meu pai estava esbravejando como um louco, parecia que haviam várias pessoas discutindo, porém não ouvia a voz da minha mãe.

Eu era naquele momento, um misto de medo e de curiosidade. Então, abri bem devagar a porta, deixando uma fresta suficiente para que pudesse observar o que estava acontecendo, sem correr o risco de que me notassem. De repente, vi minha mãe chegando, seu rosto só transparecia ódio, nunca havia visto ela daquele jeito, nem quando brigava com o meu pai.

Ela se pôs em frente ao Nicolai e começaram a discutir. Atrás dele havia cerca de cinco homens, elegantemente vestidos e visivelmente nervosos como todos ali e dois deles estavam com armas em punho. Ao lado dela, estavam duas mulheres e dois homens. A discussão era geral, ninguém parecia se entender, até que ele mandou que todos calassem a boca.

- Saia daqui Irina!

- Só saio daqui depois de ter eliminado todos vocês. Não aguento mais suas loucuras!

- Experimente fazer alguma coisa comigo, para ver o que lhe acontece!

Num piscar de olhos, vi meu pai se contorcendo de dor, quase caindo no chão, o mesmo aconteceu com um de seus amigos. No meio dessa confusão, avistei um vulto no final da sala, por de trás das cortinas, observando tudo o que acontecia.

Será que a minha mãe tem o mesmo poder da Tatiana? Se ela tiver esse poder mesmo, talvez isso explique o fato de ter nascido diferente das outras pessoas, já que ninguém acha normal eu conversar com animais, sei lá, talvez isso seja genético!

Meu pai realmente se irritou e todos que estavam ao seu lado, tiraram a suas armas.

- Sua vagabunda, saia daqui agora, você não terá a menor chance contra nós!

- Eu irei, mas Katarina virá comigo!

- Não vai mesmo!

Quando ouvi isso abri a porta desesperadamente e fui correndo na direção dela, não queria ficar com ele. Porém não consegui alcançá-la, um dos amigos do meu pai me segurou e apontou uma arma para minha cabeça, entrei em desespero e comecei a chorar.

- Se der mais um passo Irina, ela morre!

Depois disso, não me lembro de mais nada, acordei no meu quarto na manhã seguinte, porém tal cena ainda é bastante nítida na minha mente, parece que é um filme que vira e volta assisto de novo. Ao me levantar, fui direto para o quarto dos meus pais, não havia ninguém lá, o armário dela estava vazio. Então mais que depressa, fui correndo pela casa a procura do meu pai. O encontrei no seu escritório conversando com os mesmos homens da noite anterior.

- Onde está a minha mãe?

- Aquela vadia? Foi embora. Agora saia daqui que tenho assuntos mais importantes para resolver.

- Vocês a mataram, não é verdade?

- Não seja insolente menina!

Estava morrendo de raiva, tinha quase certeza que ele havia matado minha mãe. Não sei o que me deu, voei em cima dele e comecei a arranhar seu rosto. Os outros me seguraram e me levaram para o meu quarto. Quando apareceu, me bateu muito, foi a primeira de muitas surras que levei, devo ter ficado uns três dias de cama.

Naquela mesma semana, nós nos mudamos para a cidade de Moscou.

... 6 de agosto de 2000

A presença daqueles homens era constante em nossa casa. Entre eles havia uma figura sinistra, Vladimir Zakaharov. Ele era um homem relativamente jovem, forte, de cabelos longos, ruivos e olhos negros. Sempre que ele chegava, ia para o meu quarto, afinal era impossível esquecer a cena dele colocando aquela arma na minha cabeça.

Eu devia ter uns 11 anos, quando realmente começaram as perversidades do meu pai. Numa noite, ele veio até meu quarto e começou a me acariciar. Acordei com os seus beijos. Jamais a esquecerei, foi só o começo…

A minha vida naquela casa era um inferno, vivia machucada em virtude de seus abusos e surras. Tinha sempre que inventar uma boa desculpa no colégio, pois se alguém desconfiasse do que acontecia em nossa casa, ele me bateria ainda mais, não duvido que me mataria. Havia um médico de sua confiança, que vinha cuidar de mim, quando os ferimentos eram muito graves. Parece que com o tempo fui ficando cada vez mais resistente às dores, já não doía tanto como no início. Mas ao mesmo tempo que ele transformava a minha vida num inferno, eu causava mais e mais problemas para ele.

…2 de setembro de 2000

Teve uma vez, que aprontei uma boa para o meu pai. Ia ter uma festa em nossa casa e só iam pessoas importantes, empresários, políticos e outros. Eu simplesmente, coloquei laxante na comida e na bebida da festa. Esta foi um verdadeiro fracasso, todos iam embora passando muito mal e ele não sabia o que fazer, ficou desesperado de tanta vergonha. Não precisa nem dizer que levei uma grande surra e dias de castigo. Mas apesar disto, adorei ver seu desespero, sua raiva e sua vergonha diante daquelas pessoas, com certeza sua reputação ficou um bom tempo abalada.
Por várias vezes tentei ir a polícia, a princípio acreditavam em mim, mas quando chegavam na minha casa, meu pai os subornava e saia livre das acusações e como sempre apanhava mais. Depois comecei a fugir de casa, mas não ia mais para a polícia, vivia nas ruas, no entanto isso não era garantia de liberdade, pois seus amigos sempre me encontravam.

…20 de setembro de 2000

Eu vivia praticamente isolada em casa, ele não deixava sair sozinha, nem para brincar com meus pouquíssimos amigos e também não permitia que eles fossem lá em casa. Os animais, como conseqüência da solidão, passaram a ser meus melhores amigos, os quais pareciam me entender perfeitamente. Era incrível como eu podia falar com eles e compreender o que diziam. Com o tempo passei a ter, como eles, sentidos aguçados. Creio que realmente tenha desenvolvido isto, após a chegada de Trotsky. Não sei porque, mas o meu pai havia me dado um lindo cão. Ele passou a ser meu leal companheiro e amigo de todas as horas, não vivia sem ele, ir para escola era um martírio, pois não podia levá-lo.

Não acredito que o maldito do Mikhail tenha o matado!

Na última vez que fugi, haviam dois meses que estava perambulando pelas ruas com Trotsky. Quando aquele ex-amigo da Tatiana me cercou e disse que um outro homem que estava ali perto queria matar o Trotsky, não pensei duas vezes e fui com ele. Na hora nem imaginei que poderia ser armação do meu pai, só pensei nele.

…3 de outubro de 2000

Assim, eu fui levada para a casa da Tatiana e acabei conhecendo o Nicolas. Nós ficamos lá por pouco tempo, porque alguns homens invadiram o lugar e tivemos que lutar com eles, mas felizmente conseguimos escapar e viemos parar neste hotel no subúrbio de Moscou. Dois dias depois fomos ao enterro do meu pai. É verdade, aquele crápula, pervertido está morto, no entanto prefiro não falar de sua morte e sim do seu enterro, que foi até certo ponto engraçado. Quando chegamos ao cemitério, o Mikhail e seus amigos já estavam lá. Sabe o que eu fiz? Fui até o seu caixão e subi em cima dele e comecei a xingar a alma do meu pai, se é que ele tinha uma, e a agradecer por ele está morto. Aí me tiraram lá de cima… fiquei furiosa! Eu logo pensei que tinha que aprontar uma para o Mikhail, então chamei uma pomba e lhe pedi que cagasse bem no meio da cabeça dele. Eu ri muito!!!! Ele ficou muito furioso e Logo depois, do nada, comecei a sentir uma dor muito forte no braço, quando vi ele estava totalmente deslocado e ao olhar para o Mikhail vi que ele era o responsável pelo que havia acontecido comigo, novamente havia se utilizado de seus poderes demoníacos. Apesar do acontecido, a cena foi muito engraçada, adorei vê-lo puto de raiva, mas ainda bem que a Tatiana tem aquelas mãos capazes de curar, se não nenhum médico ia conseguir dar jeito no meu braço.

Aliás a Tatiana é muito legal e o Nicolas também. Pelo que sei fazem parte de ordens secretas. O Nicolas é um Discípulo do Saber, mas já foi da inquisição católica. Engraçado, achava que inquisição havia acabado na época da idade média, pelo visto continua mais viva do que nunca, já que dois inquisidores vivem atrás do Nicolas. Acho que a Tatiana faz parte de uma tal Confraria dos Tocados, quer dizer, o que sobrou dela, porque o Mikhail, antigo líder da sociedade em Moscou, levou quase todos para a sua seita satânica e aqueles que sobraram foram mortos. Como eu, ela também não deu muita sorte com o pai.

Estou ficando cada vez mais confusa com essa história toda, sociedades, religiões, dons. O que será que significa tudo isso? Eles falam que conversar com animais, sentir, ouvir, perceber como eles e poder controlá-los não é normal e sim, um dom . Antes não acreditava nessas histórias de Deus e Diabo, mas depois de tantas coisas estranhas que vem acontecendo, fui obrigada a acreditar que esse tipo de forças realmente existem. Minha cabeça parece que está entrando em parafusos.

…15 de outubro de 2000

Hoje fomos a um orfanato procurar uma freira que quando criança conviveu com o Mikhail. Mas quando estávamos conversando com a Andressa, um pessoal invadiu o local para tentar roubar alguns diários que ela escreveu sobre ele, contando as coisas que ele fazia durante o tempo que ficou lá. Naquela confusão, o quarto dela foi incendiado e parte dos diários foram queimados, outra foi roubada, mas ela conseguiu salvar uma parte. Com o incêndio, saí correndo e fui lá para fora, foi quando vi alguns caras que estavam tentando entrar por uma janela, então convoquei alguns pássaros e mandei que eles os atacassem, mas não deu certo, ao invés de atacá-los, vieram para cima de mim e no momento que consegui me livrar deles vi um bicho enorme, com asas e feições demoníacas que pairava no ar bem próximo à janela. De tanto medo, sai correndo e só fui parar após ter percorrido uns dois quarteirões.

…2 de novembro de 2000

Se eu pudesse voltar atrás teria fugido do parque naquele dia. Se tivesse feito isto provavelmente não teria me metido em tantas confusões com o Nicolas e a Tatiana e o Trotsky ainda estaria vivo. Parece que a Rússia toda está a nossa procura. Não aguento mais ter que ficar me escondendo, viver em hotéis imundos, correr da polícia, que quer me colocar em um orfanato, conviver com a inquisição e principalmente, fugir das armações do Mikhail. Pelo menos uma coisa boa aconteceu: o desgraçado do meu pai está morto, morto, morto… nunca mais vai poder fazer nada comigo!

Queria muito que a minha mãe voltasse, se é que ainda está viva. Tenho certeza que ela poderia nos ajudar, porque se naquela época ela disse que pertencia a uma sociedade de princípios completamente opostos a do meu pai, então provavelmente detestaria o Mikhail.

…10 de dezembro de 2000

Ufa! Parece que até que enfim vamos ter sossego, pois conseguimos reunir provas suficientes dos podres daquele demônio e ele foi extraditado. Bom não era bem o que queríamos, mas agora ele está bem longe e poderei viver uma vida tranquila, sem as confusões dos últimos meses e o melhor de tudo é que não precisarei ir mais para um orfanato, pois a Tatiana e o Nicolas resolveram me adotar.

… 10 de março de 2001
Ah não, começou tudo de novo, estamos agora em San Marino, na Itália, a procura de um livro de carne que o Mikhail está tentando montar. Parece que esse livro contém vários rituais satânicos que poderão trazer grande mal para a humanidade. Não queria estar aqui, preferia ter ficado em Moscou, mas o Nicolas tinha que vir e não teve outro jeito. Estamos tentando encontrar o lugar onde ele está hospedado, mas até agora não achamos nada.

... 11 de março de 2001

Hoje aconteceu algo estranho, um velho chamado Mirtras veio até nosso hotel e falou que estamos vivendo em uma tal Torre de Babel e que o fim se aproxima. Ele parece meio maluco, diz coisas sem sentido, o pior é que ele disse que tenho uma alma podre. Não sei porque, sei que já aprontei muito, mas mão me acho uma pessoa má, pelo contrário, quero ser bem diferente do que foi o meu pai e jamais teria coragem de fazer o que ele fez ou o que pessoas como o Mikhail fazem com as outras.

... 12 de março de 2001

Estamos na maior encrenca! Aconteceu uma grande confusão ao encontrarmos com o Mikhail e seus amigos em um restaurante. O Nicolas e a Andressa estavam conversando com ele e de repente, tentou acertá-la com uma faca. Aí não sei como, a mesa ficou envolta em sombras e os tiros começaram; a única coisa que pude fazer para ajudar foi convocar uma grande quantidade de pássaros para atacá-los. Ia sair correndo, porém resolvi voltar para tentar ajudar a Andressa, que estava no chão envolvida em uma sombra. Felizmente, conseguimos apesar de alguns ferimentos, sair de lá vivos. Eu levei um tiro, o pior é que nem foi da turma do mal, foi do senhor Gian Marcos, que pelo visto é um perigo com uma arma na mão, é capaz de não conseguir acertar alguém a um metro de distância! Ele é um milionário excêntrico que está nos ajudando, parece que faz parte da sociedade do Nicolas. Por enquanto, estamos seguros…
Por Karla Nogueira